Hoje dá para escrever "logo para uma confeitaria artesanal, tons de rosa, estilo elegante" e receber dezenas de opções em menos de um minuto, de graça ou por alguns reais. Diante disso, a pergunta é justa: ainda faz sentido contratar alguém para criar um logo?
A minha resposta honesta é que depende do momento do negócio. As ferramentas de inteligência artificial resolvem bem alguns casos, e seria teimosia minha negar. Em outros, elas entregam algo que parece pronto e dá problema depois. Neste texto eu mostro como distinguir uma situação da outra.
O que a IA faz bem
Velocidade e variedade. Em poucos minutos você vê caminhos que levaria dias para imaginar. Para quem ainda não sabe o que quer, isso tem valor: olhar vinte opções ajuda a descobrir o que agrada e o que não combina com o negócio.
Custo para testar. Quem está validando uma ideia, vendendo os primeiros produtos para conhecidos, não precisa de um projeto completo. Um logo gerado, usado com cuidado, cumpre o papel nessa fase.
Rascunho para a conversa. Quando o cliente chega com exemplos do que gostou, o caminho encurta. Para mim, as imagens geradas funcionam como referência, do mesmo jeito que um recorte de revista.
Onde costuma falhar
O arquivo não serve para tudo. Muitas ferramentas entregam uma imagem comum, formada por pontinhos, que perde nitidez quando ampliada. Um logo precisa existir em formato vetorial, que pode ir de um carimbo a uma fachada sem borrar. Converter depois é possível, mas é um trabalho de redesenho, feito à mão.
Detalhes que não sobrevivem. Os resultados costumam ser cheios de sombras, degradês e linhas finas. Ficam bonitos na tela grande e viram um borrão no ícone do perfil, no bordado do uniforme e na etiqueta. Um logo é testado justamente nos tamanhos pequenos e em uma cor só.
Letras inventadas. O texto dentro da imagem muitas vezes sai com letras deformadas ou desenhadas de um jeito que não corresponde a nenhuma fonte real. Sem a fonte, não há como escrever o resto dos materiais com a mesma letra.
Parecido com muita coisa. Essas ferramentas aprendem com milhões de imagens que já existem. O resultado tende ao que é comum em cada segmento: a xícara da cafeteria, a folha do produto natural, a tesoura do salão. É grande a chance de uma marca vizinha receber algo muito semelhante com um pedido parecido.
Só o logo. Como o logo é apenas uma parte da identidade, falta todo o resto: as cores com função definida, a tipografia, as regras de uso. A cada material novo, a dúvida volta.
A questão do registro
Vale um cuidado antes de imprimir mil embalagens. No Brasil, quem protege uma marca é o registro no INPI, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, e o pedido pode ser negado se já existir uma marca parecida no mesmo ramo de atividade.
Isso vale para qualquer logo, feito por pessoa ou por máquina. O ponto é que um desenho gerado a partir de padrões muito usados tem mais chance de esbarrar em algo existente. Antes de investir na marca, faça uma busca no próprio site do INPI, que é gratuita, ou peça orientação a quem trabalha com registro.
Há também uma discussão ainda em aberto, no Brasil e fora dele, sobre a quem pertence uma imagem criada por inteligência artificial. Leia os termos de uso da ferramenta para saber o que ela permite fazer comercialmente com o que foi gerado.
O que eu faço de diferente
O meu trabalho começa antes do desenho. Começa por entender o negócio: para quem ele vende, o que promete, com quem compete, por que alguém escolheria ele e não o outro.
Dessas respostas saem escolhas que têm motivo. A cor não é rosa porque confeitaria costuma ser rosa; é a cor que diferencia aquela confeitaria das outras três do bairro. A letra não é a que estava na moda; é a que funciona na embalagem pequena que a marca usa.
Depois vêm os testes, que a ferramenta não faz por conta própria: o logo em preto e branco, em um centímetro de largura, sobre foto, no bordado. E a entrega dos arquivos certos, com as orientações de uso.
No fim, o que você contrata é esse raciocínio, mais do que o desenho.
Dá para combinar os dois
Não é preciso tratar a escolha como oito ou oitenta. Muitos profissionais usam inteligência artificial em parte do processo, para explorar caminhos mais rápido, e fazem à mão a decisão, o refinamento e a construção final.
Do seu lado, também há um meio-termo razoável: usar a ferramenta para descobrir do que você gosta, e levar esse material para alguém transformar em uma marca que funcione de verdade.
Cinco testes para qualquer logo
Venha de onde vier, um logo pode ser posto à prova em poucos minutos, antes de qualquer impressão.
- Reduza até a largura de um dedo. Ainda dá para ler o nome?
- Passe para preto e branco, sem tons de cinza. Ele continua reconhecível?
- Coloque sobre um fundo escuro e sobre uma foto. Existe uma versão que funcione nos dois?
- Ponha ao lado dos logos de três concorrentes. Dá para saber qual é o seu de relance?
- Mostre a alguém por cinco segundos e peça para a pessoa descrever de memória. O que ela lembrou é o que a sua marca comunica.
Um logo que passa nos cinco está pronto para o mundo real, não importa como foi criado. Um que tropeça em dois ou três vai dar trabalho na primeira embalagem.
Como decidir
Algumas perguntas ajudam.
O negócio ainda está em teste, e a marca pode mudar em seis meses sem prejuízo? Um logo gerado resolve por enquanto. Use poucas cores, guarde os arquivos e siga em frente.
Você vai imprimir embalagens, pintar uma fachada, registrar a marca ou investir em anúncios? Aí o custo de errar é alto, porque refazer tudo depois sai mais caro do que fazer bem agora.
Os seus concorrentes diretos se parecem todos? Diferenciar-se deles é um trabalho de estratégia, e é onde uma marca pensada mais se paga.
E uma última, que para mim costuma decidir: você se sente à vontade para mostrar a sua marca? Se a resposta é não, vale conversar com alguém.
Para conversar sobre a sua marca
Eu sou a Bruna Sena e crio logotipo e identidade visual para pequenos negócios. Atendo online, de São Paulo para todo o Brasil. O contato está na minha página. No blog, vale ler também o que é identidade visual e o que vem num projeto completo e para que serve um manual de marca.